Fonte: Jornal Rock Press - RJ - Novembro 1984
Texto de: Luiz Antônio Mello
Quem é o Queen.
Sobre qual Queen vocês querem saber? Esta inquieta banda inglesa tem o dom(raro, diga-se de passagem) de funcionar como uma espécie de transloucado carrocel de estilos, tendências, pequenas manias, muitas ousadias. Na verdade o Queen é um grupo que conseguiu entrar para a galeria dos indescritíveis. Esse fenômeno tem uma, vinte, dez mil explicações. Mas Rock Press optou pelas opiniões de dois integrantes do grupo que em 81 conversaram comigo sobre tudo. A conversa foi numa conturbada esquina "Lebloniana" (relativo ao bairro do Leblon, Zona Sul do Rio), cercada de botequins por todos os lados,
onde as pessoas tem como hábito a divagação plena, de preferência sobre o absurdo. Numa mesa do canto, estavam Brian May e Roger Taylor. Além deles um inglês chato pra cacete metido a bom entendedoe de meias palavras que realmente não bastam (para ele) e uma meia dúzia de cariocas e paulistas fantasiados de empresários, misturados com outra meia dúzia
de empresários fantasiados de cariocas e paulistas.
Bom, mas isso não vem ao caso. O papo com May e Taylor durou mais de uma semana, enquanto o grupo aguardava uma resposta dos chaguistas (baba-ovos do ex-governador carioca Chagas Freitas) para saber se ia ou não tocar no Maracanã. Os Chaguistas pediram alto demais e não abriram nem quando o Queen abriu mão de toda bilheteria em benefício da ABBR.
Conclusão: não aconteceu o concerto no Rio.Mas sobre que Queen vocês querem saber?
Existe a banda do ex-quase cantor de ópera Freddie Mercury que tem como hábito passar dias e mais dias trancafiado em quartos de hotéis, temendo ser devorado por fãs canibais. Ele tem cerca de 1,70 de altura, usa bigodes, se irrita quando comentam que é bissexual, mas quando chega defronte de uma partitura ou perante uma platéia, abre o verbo e se transforma num dos maiores compositores e intérpretes da história do rock. e decididamente, o sujeito que entra numa loja e pede um disco do Queen, não quer saber se Mercury gosta de tricô, caça meninos pelas ruas, ou vive torpe entre quatro paredes.
Honra seja feita a voz e ao talento de Mercury, responsáveis pela face erudita do Queen. Ouçam por exemplo A Night At The Opera, um autênticodilúvio criativo que quase deixou o egocêntrico e doido Roger Waters, do assassinado(por ele) Pink Floyd, nú de inveja. Quando você ouve um piano no som do Queen, o dedo é de Mercury. O mesmo quando pinta um
coro ultra-sofisticado ou então uma mega-mixagem. A especialidade de Freddie Mercury é torturar a vida dos engenheiros
de som em busca da perfeição. E quase consegue. Só não a obtem por que o perfeito não existe. Essa caça a perfeição chega as raias do ridículo. Freddie não se deixa fotografar ao lado de Brian May, que com seus 1,90 de altura transforma o vocalista do Queen num gnomo. As fotos só saem (perguntem ao Maurício Valladares) se May se encostar em algum lugar e parecer que tem a mesma altura de Mercury.
No outro extremo está o própio Brian May. Ao contrário de Freddie, filho de mãe possessiva que o obrigava, desde
pequeno, a frequentar escolas de canto e ouvir óperas o dia inteiro, May é um filho legítimo do rock. Seus ídolos maiores: BB King e Hendrix. Simpatiza com o som de Jimmy Page, idolatra a bomba acústica do Alarm. May é o homem do som, das feitiçarias, dos pedais. É ele quem pesa o som do Queen, contando sempre com a fiel cumplicidade de Roger Taylor, outro aficcionado por eletrônica, responsável pelos momentos mais ferozes da banda.
O quarto elemento chama-se John Deacon, que como todo grande baixista (vide John Paul e John Entwistle) fica parado num canto olhando. Vai lá, faz um irrepreensível som de base e cai fora. Não importa de onde, para que, para quem, de quem ou com quem Deacon é consciente de um fato: sou pago para ficar quieto e sair tocando. Aliás, disse ele uma vez, "Gosto de ficar quieto e sair tocando".
Quando o pau come dentro da banda, é briga de cachorro grande. May e Taylor de um lado. Do outro, o gênio terrível de Freddie Mercury, obsessor, facista, mas (o que fazer?) genial. Fora da banda, pelas madrugadas, eventualmente circulam juntos May e Taylor. Em outra praia, bem distante, fica Mercury e seu mau humor crônico. E em algum shopping da vida, fazendo compras com a mulher, ou propositalmente alheio, John Deacon. Há quem diga que pouco se briga dentro do Queen.
Há quem diga o oposto. Na verdade o grande trunfo do grupo é a imagem de unidade plena e pacífica. Esse atestado não veio através de um grande trabalho, mas sim dentro de um dos piores discos já vomitados sobre a música pop contemporânea chamado Hot Space. Um disco tão vazio que foi renegado pelo própio Queen. Por incrível que pareça, a banda mais unida do Universo parecia ter se enroscado dentro de um liquidificador, arremessado caroços de azeitona para todos os lados. Para compensar, o mercado mundial teve o prazer de receber The Works, último trabalho do grupo, que conseguiu reunir todas as tendências modernas sem que a estrutura básica do som do grupo fosse atingida. Esse disco pegou a crítica de surpresa e deixou os Queenmaníacos boquiabertos. No início da carreira a banda fazia questão de informar nas contra-capas dos discos, que não usava nenhum tipo de sintetizador. Morderam a língua. The Works é sintetizador do início ao fim. "Puristas, nós? Absolutamente", conversa Brian May. "No início eu dava um duro desgraçado para tirar sons dos mais estranhos de minha guitarra, que chegavam a se confundir com programas de sintetizadores da época. Eu precisava dizer que aquilo era feito na base do suor, da pelheta, no tapa. Hoje não". É verdade, May conseguiu deixar muita gente atônita (Por favor repito, ouçam
A Night Ate The Opera) com seus sons, arrancados com míseras seis cordas de guitarra, evidentemente pasteurizada nos melhores estúdios europeus, equipados com o que há de melhor no mercado mundial.
Ao vivo o Queen parece a gata borralheira depois da meia-noite. Joga a charrete dourada de cima do palco e parte para a abóbora, mandando ver. Dizem algumas correntes que o Queen ao vivo é um grupo de Heavy Metal. Outros o classificam como progressivo pesado. Outros como Hard. Outrso como isso, como aquilo. Na verdade o Queen continua sem definição. Há notícias com shows com solos de bateria com 25 minutos de duração. Há notícias de concertos inteiros regados ao que há de mais distorcido em som e imagem. Há evidentemente notícias de shows do Queen igualzinho ao Queen. Quem é o Queen?
Um grupo entregue a uma proposta de trabalho que parece não ter limites de abertura, mas que vive sob a paranóia da velhice. A cada disco, nota-se claramente que Freddie Mercury quer dizer que está revigorado. E manda ver. Não poupa nada, principalmente as amígdalas. O resto é tratado de manhã, quando ele corre cerca de 10 quilômetros para compensar os desgastes. O Queen com unhas de fogo, recusou várias propostas de seguir carreira solo, com contratos milionários.
Tanto que se submeteu a uma verdadeira humilhação num cômico clip que a banda fez em clima de século passado, onde Freddie aparece com cara de dançarina de bordel fechado pela secretaria de saúde. Tudo pela unidade. John Deacon teve que usar chuca no cabelo ou cabelo na chuca, não dá para separar bem, e se viu obrigado a se achar lindo sob o risco de
ser limado da banda. É a tal história: o Queen unido jamais será vencido. É o que parece. A excursão do grupo pela Europa foi uma das mais rentáveis da História. O grupo está forte, pesado e, acima de tudo, sincero como nos velhos tempos.