îRoger Taylor lança disco solo e anuncia álbum com Mercury

Antinazismo censurado

LONDRES - Queen, a lenda continua. Roger Taylor, ex-baterista da banda, está lançando novo disco solo: "Happiness?". O álbum inclui a faixa "Nazis 1994", cujo tema (Taylor pedindo a cabeça dos neonazistas) foi considerado polêmico demais para tocar nas rádios inglesas. A música também foi banida das rádios em Israel, na Polônia e na Eslováquia. A faixa é um dos exemplos mais descarados do tom sócio-político do disco.
Nesta entrevista ao Globo, Taylor comenta sua nova vocação para abordar assuntos sérios e fala sobre o disco que ele e os outros ex-integrantes do Queen estão preparando para o ano que vem, com vocais de Freddie Mercury, morto em 1991, tirados de arquivo.

Por que uma música sobre neonazistas?

Na Europa é um grande problema. Tentei falar sobre isso de uma forma simples e óbvia, que é como se faz em música pop. Estranhamente, as rádios na Inglaterra não quiseram tocar.
Essa censura não faz sentido. É um disco antinazista e não pode tocar no rádio.
Muita gente critica quem usa música pop como manifesto político, especialmente se é alguém rico e bem estabelecido como você…
É bem isso. Mas tenho tanto direito de falar sobre essas coisas quanto qualquer um. As pessoas tendem a pensar que por ser relativamente rico e ter uma carreira bem-sucedida numa grande banda de rock não tenho o direito de dar opinião. É um preconceito.
Seu disco traz uma visão bem cinza do mundo e o título põe um ponto de interrogação na palavra "felicidade". Mas em algumas faixas você deixa claro que ainda vale a pena tentar ser feliz. Então não deixou de ser otimista?
Acho que não é o caso de ser otimista ou pessimista, é só como as coisas funcionam. Pode se falar o que quiser, da maneira que quiser, mas no fim todo mundo quer é ser feliz. Não dá para ser feliz o tempo todo, mas é o que se tenta. É só um comentário.

Na faixa "The key" você se mostra desiludido com a política e a religião. Acha que são instituições falidas?

Totalmente.

Na pior fase da doença de Freddie Mercury você não ficou tentado a procurar a religião?

Não, não. De certa forma, foi o contrário. Você vê essas coisas terríveis acontecendo e pensa "Que tipo de Deus é esse?", "Que tipo de Deus inventaria a Aids?". Não sei, essa é uma pergunta bem difícil.
Acompanhar o sofrimento e a morte de Freddie Mercury representou alguma mudança nos seus valores ou no modo como encara a vida?
Você percebe que a vida pode ser bem curta. E que é preciso viver para o momento. É uma coisa que sempre achei, mas você tem que ficar se relembrando sempre disso. O amanhã pode nunca chegar. O negócio é viver o máximo possível agora.

Você tem lembranças especiais das suas viagens ao Brasil?

Tenho. Acho que no Brasil tivemos algumas das maiores platéias de nossa carreira. Foi divertido e enlouquecido. Dava para sentir que representávamos uma coisa nova, porque parece que naquele tempo eram poucas as bandas que tocavam lá. Depois voltamos para o Rock in Rio e eu me diverti muito. Era inacreditável o que tinha de gente lá.
Há planos de voltar para o Brasil sozinho ou com os outros ex-integrantes do Queen?
Não há planos. Mas quanto a mim, se me convidarem eu vou.

Há algum projeto entre os ex-músicos do Queen?

Tem um disco do Queen saindo ano que vem. Vai ser o último álbum com a voz de Freddie Mercury. Já estamos gravando. Demoramos dois anos para decidir que queríamos realmente lançar esse disco. Queremos fazer uma coisa bem feita e que dure.

Quando Freddie Mercury gravou esses vocais?

Pouco antes de morrer. Duas músicas serão relacionadas a esse tema, da proximidade da morte. Posso prometer um disco bem emocional, mas não posso falar mais do que isso.

Fonte: Camilo Rocha - O Globo 27/10/1994



<- Voltar